sábado, julho 13, 2013

Satan



Todos que frequentavam este blog antes do longo recesso sabem que curto um velho e bom heavy metal. Tenho a teoria de que uma pessoa que não conheceu a fundo o estilo na adolescência, não vibrou com acordes de guitarra de Tony Iommi ou James Hetfield, não balançou a cabeça acompanhando desajeitadamente a batida de um bom power metal alemão, não se impressionou com as atomosferas lúgubres criadas pelo Venom ou o Celtic Frost, não tem como gostar de heavy metal depois de adulto. É preciso se empolgar quando adolescente para pegar a doença. Uma vez tomado por ela, nunca será curado. E nem desejará a cura. Pois aquele que abandonou as fileiras do bom metal ou é um traidor, ou nunca havia gostado de fato.

Eis que escuto, somente hoje, o novo álbum do Satan, uma das minhas bandas preferidas da New Wave of British Heavy Metal (NWOBHM), movimento surgido na primeira metade dos anos 1980 que influenciou muita gente a partir de seus mais nobres representantes: Saxon e Iron Maiden. Pois ao ouvir Life Sentence, álbum que retoma a formação do clássico Court in the Act (1983), volto à adolescência, mas só à parte boa desse período. Esqueço momentaneamente os problemas e vibro com a energia que vem dos autofalantes, e me encanto com as melodias cantadas por Brian Ross e assobiadas pelas guitarras mágicas de Russ Tippins e Steve Ramsey. O baixo de Graeme English está ali para segurar a grandiosidade da banda, assim como a bateria segura de Sean Taylor. Nem acredito que esses caras se reuniram novamente para derreter meus ouvidos de puro prazer metálico.

Ramsey e English foram do Skyclad, a banda que mais me agradou entre as que orbitaram mais de perto o Satan - as outras são Blind Fury, Pariah e Blitzkrieg. Esta última tinha em sua formação Brian Ross, que para mim é um dos maiores cantores de metal de todos os tempos. Considero-o superior ao David Coverdale, para falar de alguém com a voz muito parecida. Ross não quer imitar Coverdale, com este imitava o Robert Plant. Ross é uma dessas vozes únicas, e as melodias do Satan combinam perfeitamente com sua maneira de cantar (até os gritinhos clichês do metal ficam bem com ele).

Destaques de Life Sentence? Por enquanto, todo o álbum merece destaque, da primeira faixa, "Time to Die", à última, "Another Universe". Bom, se for possível apontar um ponto mais fraco, seria sem dúvida a faixa-título, que é boa, mas não alcança a majestosidade do restante do álbum (lembrando que eu só o escutei uma vez). 

É sem dúvida um dos melhores discos de metal dos últimos anos. Até me arriscaria a dizer que é o melhor dos últimos 20 anos. E faz o que muitas vezes provoca o fracasso das bandas que retornam: é como se estivéssemos em 1985 e este fosse o segundo disco da banda após o magnífico Court in the Act (ignorando os discos que eles fizeram com Michael Jackson, não o de Bily Jean, no lugar de Ross). Esse disco faz de 2013 um marco do heavy metal tradicional. 

Agora dá licença que vou ali empilhar carteiras no fundo da sala de aula.

segunda-feira, julho 01, 2013

Genesis (1976-1981)



Voltando a este blog musical, meu primeiro blog, exclusivo para textos sobre música, qualquer tipo de música. 

Nada mais justo que esta volta seja feita por causa da reaudição de alguns discos de uma banda que eu sempre amei, Genesis.

Reouvi a fase 1976-1981, ou seja, os primeiros discos sem Peter Gabriel, até a virada para o pop. O juízo sobre esses discos não mudou. Continuo achando Wind and Wuthering e And Then There Were Three superiores a todos os outros (creio que seja possível incluir aí os que a banda fez depois de Abacab). Ainda acho Duke o mais fraco de todo o período. As cotações continuam assim:

A Trick of the Tail (1976) * * * *
Wind and Wuthering (1976) * * * * 1/5
And Then There Were Three (1978) * * * * 1/5
Duke (1980) * * *
Abacab (1981) * * * *

Stephen Thomas Erlewine, do AMG, diz que Wind and Wuthering é o disco que marca um começo de mudança para a fase pop, e que And Then There Were Three é mais forte ainda na direção do pop oitentista que a banda fará daí em diante. Certo. Mas percebo muito mais diferença em Duke, com sua capa infantil refletindo uma busca por uma sonoridade mais simples e direta, do que no disco anterior, cuja melancolia se afastava do pop que os tornaria mundialmente famosos. Eles nunca haviam feito algo tão pop quanto "Misunderstanding" ou "Turn It on Again", presentes em Duke. Os resquícios do progressivo sobrevivem em "Duke's Travel" e "Duke's End".

Erlewine também se impressiona com a diferença de "Your Own Special Way", presente em Wind and Wuthering, e o som padrão Genesis até então. A letra romântica pode até sinalizar novos tempos, mas a sonoridade está mais para Crosby, Stills and Nash do que para o que a banda faria em seguida, e existem baladas mais melosas em A Trick of the Tail ("Mad Mad Moon" e "Ripples").

A virada para o pop iniciada com tudo em Duke vai encontrar melhor tradução em Abacab, possivelmente o melhor disco do Genesis nos anos 80. "No Reply at All" é um clássico do funk branco, com a ajuda dos "corneteiros" do Earth Wind and Fire. "Keep it Dark". "Abacab" e "Another Record" mostram uma inventividade ainda intacta, só que não mais a serviço do prog. Abacab é certamente um disco injustiçado.

TOP 10 da fase, hoje:

1) One For the Vine (WaW)
2) Burning Rope (ATTWT)
3) Blood on the Rooftops (WaW)
4) Undertow (ATTWT)
5) Scenes From a Night's Dream (ATTWT)
6) Your Own Special Way (WaW)
7) All in a Mouse's Night (WaW)
8) Misunderstanding (D)
9) No Reply at All (A)
10) A Trick of the Tail (ATotT)

terça-feira, junho 15, 2010

Os 100 melhores discos de música brasileira (1968-2008)

OS 100 MELHORES DISCOS DE MÚSICA BRASILEIRA DOS ÚLTIMOS 40 ANOS

(no máximo três discos por autor)


Por Sérgio Alpendre

(com o auxílio de memória do meu irmão, Ricardo Alpendre, e a contribuição dele em alguns textos - creditados)


Sim, sou daqueles que consideram que a melhor fase da música brasileira está compreendida na primeira metade da década de 1970.


Salve Médici? Não é o caso. Mas talvez tenha a ver com um oba-oba que toma conta do país e impede que grandes coisas sejam feitas em profusão fora de tempos difíceis. Não sei. Mas não foi intencional que quase metade dos discos da lista estivesse nesse período tão rico (que deixa toda a turma que faz música no Brasil de hoje no chinelo mais chinfrim).


É óbvio, mas é sempre deixar claro para os que tem má vontade com listas deste tipo e demais revoltados, que existem muitos grandes discos que ficaram de fora. Se a lista tivesse 200 (e sem o limite de três por artista), mesmo assim muitos ficariam de fora. Alguns coitados caíram na última hora (veja as duas listas B no final).


Caso de Let's Play That (Jards Macalé), Maria Fumaça (Banda Black Rio), João (João Gilberto), Preste Atenção (Thaíde e DJ Hum) e alguns outros que poderiam até entrar, dependendo do dia do ponto final.


Sem contar com inúmeros representantes da boa música que estão ausentes: Antonio Marcos, Dorival Caymmi, Nana Caymmi, Dori Caymmi, Danilo Caymmi, Daniela Mercury, Vitor Ramil, Taiguara, Nelson Cavaquinho, Ivan Lins, Moacir Santos, Eduardo Gudim, Ronaldo Bastos, Carlos Lyra, Di Melo, Smetak, O Terço, Trio Mocotó, União Black, Black Future, Erasmo Carlos, Sepultura, André Geraissati, André Christovam, Blues Etílicos, Cascadura, Lobão, João Nogueira, Jorge Aragão, Jorge Veiga, Jongo Trio, Quinteto Ternura, Sérgio Ricardo, Sidney Miller, Joelho de Porco, Premeditando o Breque, Lingua de Trapo, Skowa e a Máfia, Ultraje a Rigor, Cabine C, Gang 90, As Frenéticas, Dante Ozetti, Ná Ozetti (Estopim foi outro disco que caiu na última hora), Los Hermanos, Barão Vermelho (mas não Cazuza), Mundo Livre, Nação Zumbi (melhor sem Chico Science), Gueto, De Falla, Alceu Valença, Trio Elétrico de Armandinho, Dodô e Osmar, Mercenárias, Os Mulheres Negras, Karnak, Claudinho e Buchecha, Rappin' Hood, Kelly Key, Zé Renato (presente, ao menos, com o Boca Livre), e tantos outros que mereciam citação ou que ainda não pude conhecer.

Mas não tinha jeito algum de entrar: Raul Seixas (que fez discos bons - e só - nos anos 70), Cazuza, O Peso, Bixo da Seda, Módulo 1000, Made in Brazil, Maria Rita (todos muito abaixo dos representados aqui), e outros artistas superestimados.


Os 100 escolhidos refletem a minha preferência. Podem chamar de egocentrismo e tal, mas, em música, só me interessam listas individuais. As coletivas são repletas de injustiças históricas, certamente em número maior que as que certamente cometo, por falha na memória, ou falta de sintonia no momento com determinados discos. Enfim, injustiças de um coro são mais graves do que as injustiças cometidas por uma só voz. Não pretendo, com estes 100, dizer que são mais influentes, importantes, ou bem gravados. Não. A lista reflete única e exclusivamente o meu gosto pessoal. Encarem como um pontapé inicial para outras listas, que serão muito bem-vindas se chegarem aos nossos emails.


OS MUTANTES - Os Mutantes (1968)

Uma explosão de criatividade e alegria. O disco tropicalista por excelência. Não o melhor do período, certamente, nem mesmo da banda. Mas um disco inventivo demais. A cada audição uma nova revelação.

Destaques: Panis et Circensis, Minha Menina, Senhor F., Le Premier Bonheur du Jour.


VÁRIOS ARTISTAS - Tropicália (1968)

Era grande a tentação de deixar este disco seminal de fora. Simples: apesar de conter faixas impecáveis de música desafiadora, todos os artistas envolvidos fizeram algo melhor depois. O problema é que há, nesse caldeirão sonoro, uma magia que praticamente escrveu seu nome sozinho aqui. Não tive como tirar.

Destaques: Parque Industrial, Geléia Geral, Baby.


CAETANO VELOSO - Caetano Veloso (1969)

O disco branco, com a assinatura no meio. A primeira obra-prima do compositor baiano, entre tantas em sua carreira. Destaques: Irene, Os Argonautas, Não Identificado, Alfômega.


ROBERTO CARLOS - Roberto Carlos (1969)

Com a obra-prima Inimitável, ele ensaiou uma torção para o soul, completada neste álbum fora de série, que levaria sua carreira a rumos impensáveis, pela enorme qualidade do que viria. Destaques: As Flores do Jardim da Nossa Casa, As Curvas da Estrada de Santos, Sua Estupidez, Diamante Cor de Rosa.


JORGE BEN - idem (com a música "País Tropical")(1969)

Este á o que tem o hino Charles Anjo 45, além da indicada entre parênteses. É o disco tropicalista de Ben, com um clima psicodélico que começa na capa com a ilustração de Albery. Destaques: Charles Anjo 45, Domingas, Cadê Teresa, Descobri Que Eu Sou um Anjo, Take it Easy My Brother Charles.


OS MUTANTES - A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado (1970)

Aqui o rockão dos discos seguintes já começava a tomar forma. Antes um esclarecimento. Para eliminar um dos quatro discos dos Mutantes que eu queria colocar, resolvi adotar o seguinte crítério: eliminar aquele que tivesse a pior qualidade de gravação. Aí não deu outra. Caiu o segundo, apesar de ser maravilhoso também. Destaques: Ave Lúcifer, Preciso Urgentemente Encontrar um Amigo, Chão de Estrelas, Jogo de Calçada.


SOM IMAGINÁRIO - Som Imaginário (1970)

A banda que acompanhou Milton Nascimento nos anos 70 se aprofundou, em seus discos solo, numa espécie de Rock Progressivo com humor e certa dose de experimentalismo. Neste primeiro disco - fariam três no total - contam com Tavito e Zé Rodrix, além da liderança de Wagner Tiso. Destaques: Feira Moderna, Hey Man, Tema dos Deuses, Super-God.


GAL COSTA - Legal (1970)

O disco pirado que funciona da Gal, já que o de 1969 tinha muitos exageros. Em Legal ela encontra o equilíbrio entre a porralouquice baiana e a atmosfera tipicamente regional, entre o clima de cabaré e o rock'n'roll. É a MPB com guitarras consolidada, pra desespero dos ortodoxos. Tropicalismo agonizante, influências se encaixando. Se você preferir um disco que privilegie sua bela voz, escolha Cantar, de 1974. Destaques: Eu Sou Terrivel, Love Try and Die, Hotel das Estrelas.


TIM MAIA - Tim Maia (1970)

O disco de estréia do grande soul man brasileiro. Um marco na música de nosso país. Destaques: Coroné Antonio Bento, Cristina, Padre Cícero, Azul da Cor do Mar.


MILTON NASCIMENTO - Milton Nascimento (1970)

Este é o disco que coroa a participação do Som Imaginário - que faria três discos sem Milton nos anos 70, e lançaria a carreira solo de Wagner Tiso.


ELIS REGINA - Em Pleno Verão (1970)

Ninguém divide (ou pontua) os versos tão bem quanto Elis. Roberto? Sim, é verdade, Roberto chega lá também. E tem música do Rei neste álbum, repleto de delícias, como é a risada da Pimentinha na faixa de abertura. (Ricardo Alpendre)


NOVOS BAIANOS - É Ferro na Boneca (1970)

O primeiro álbum dos baianos malucos é o mais tropicalista. Suas músicas são o melhor do filme marginal Caveira My Friend, do mesmo ano. E pensar que este é só o primeiro de uma série de grandes discos. Destaques: Baby Consuelo, A Casca de Banana que eu Pisei, É Ferro na Boneca.


TOQUINHO E VINÍCIUS - Toquinho e Vinícius (o da máquina de escrever)(1971)

É o melhor e mais gostoso de escutar entre todos os discos da dupla. Destaques: Maria Vai Com as Outras, O Canto de Oxum, Blues para Emmett.


CHICO BUARQUE - Construção (1971)

Escolher só um disco do genial Chico é de dar dó. Poderia ser Vol 3, Vol 4, Meus Caros Amigos, Chico Buarque 78, Almanaque...Mas escolho Construção por ser o primeiro que mostra um compositor maduro e inquieto, com letras sociais e poesia inigualáveis. Destaques: Construção, Valsinha, Samba de Orly.


OS MUTANTES - Jardim Elétrico (1971)

Aqui o rockão já se formou, mas ainda há muito espaço para o pop. Talvez seja o melhor disco da banda. Destaques: Top Top, Virgínia, Saravá, Lady Lady.


DOM SALVADOR E ABOLIÇÃO - Som, Sangue e Raça (1971)

Um marco da música negra em nosso país. Infelizmente não consegui reouví-lo para fazer a lista, mas lembro perfeitamente do impacto que tive quando o descobri.


NOVOS BAIANOS - Acabou Chorare (1972)

Obra-prima absoluta. Sem mais comentários.


CAETANO VELOSO - Transa (1972)

O primeiro disco brasileiro de Caetano depois de sua volta do exílio em Londres. A maioria de suas músicas são cantadas em inglês. Tradição e modernidade colocaram de vez seu nome no rol dos grandes da MPB. Destaques: Nine Out of Ten, It's a Long Way, Triste Bahia, Mora na Filosofia.


GILBERTO GIL - Expresso 2222 (1972)

Gil havia feito alguns belíssimos álbuns antes deste: o do fardão, o das escrituras, e mesmo Louvação, são ótimos, para dizer o mínimo. A primeira obra-prima, no entanto, é Expresso 2222. Destaques: Pipoca Moderna, O Sonho Acabou, Cada Macaco no Seu Galho, Oriente.


TOM ZÉ - Se o Caso é Chorar (1972)

Só vou citar o nome de algumas músicas, para provar que a dor se encontra com a melodia de forma brilhante aqui: Dor e Dor, Senhor Cidadão, A Briga do Edifício Itália com o Hilton Hotel, Se o Caso é Chorar.


PAULINHO DA VIOLA - Dança da Solidão (1972)

É sempre uma delícia escutar qualquer disco de Paulinho. Que direi desta verdadeira obra de arte. Páreo duríssimo com Nervos de Aço.


MILTON NASCIMENTO E LÔ BORGES - Clube da Esquina (1972)

O disco inaugural do clube mostra um Lô Borges ainda adolescente, compondo como mestre, dividindo autoria e voz com Milton. Um álbum duplo (em Cd é simples) pra ficar na história. Destaques: Girassol da Cor de Seus Cabelos, Tudo que Você Queria Ser, Paisagem na Janela, Clube da esquina Nº2, O Trem Azul.


NELSON ÂNGELO E JOYCE - Nelson Ângelo e Joyce (1972)

O disco mineiro de Joyce. Uma maravilha que faz belo par com Clube da esquina, do mesmo ano.


MARCOS VALLE - Selva de Pedra (1972)

Passa de mil, não passa de dois mil. Uma trilha sonora para entrar para os cânones da MPB. Fazia a novela ser ainda melhor, mas isso não vem ao caso.


ROBERTO CARLOS - Roberto Carlos (1972)

Simplesmente, a perfeição. Destaques: a voz de Roberto Carlos no disco inteiro, assim como os arranjos, e a qualidade das composições. É isso mesmo. Se a lista tivesse um disco só, seria este.


RITA LEE - Hoje É O Primeiro Dia do Resto de Suas Vidas (1972)

Este é na verdade um disco dos Mutantes. A picaretagem deles, no caso, favoreceu a minha. Se bem que é meio feio chamar uma declaração de amor em forma de disco de picaretagem. Não salvou o romance deles, afinal.

Destaques: Tapupukitipa, Tiroleite, Teimosia, Superfície do Planeta.


PAULINHO DA VIOLA - Nervos de Aço (1973)

Clássico entre clássicos, Paulinho sempre lidou com o melhor da tradição do samba, inserindo, na base de uma ou duas por disco, faixas mais vanguardistas como a inacreditável "Roendo as Unhas", música que dialoga com free jazz e progressivo sem abandonar as raízes africanas. Das inúmeras obras-primas deste genial compósitor, Nervos de Aço talvez seja a que fique mais tempo na nossa cabeça. Destaques: Roendo as Unhas, Nervos de Aço, Comprimido, Cidade Submersa.


NOVOS BAIANOS - Novos Baianos F.C. (1973)

"Se eu não tivesse com afta eu até faria, uma serenata pra ela, que veio cair de morar, em cima da minha janela". Que outra banda faria música com esses versos, que não a melhor do mundo?


JOÃO DONATO - Quem é Quem (1973)

"Cadê Jodel?", ele pergunta. Também queremos saber. "E acompanhar a sua procura, caro mestre", dizemos todos nós.


TOM JOBIM - Matita Perê (1973)

Já começa com "Águas de Março", para dizer a que veio. Prossegue com a cantoria desajeitada do maestro. Desajeitada o suficiente para ser única e inclassificável, em um disco delicioso em cada sulco. Ser o melhor da carreira de um grande compositor não é fácil, e no momento este foi meu escolhido.


TOM ZÉ - Todos os Olhos (1973)

O mais vanguardista dos protagonistas da tropicália ficou esquecido durante duas décadas. Quando redescoberto, teve, enfim, seu valor reconhecido. É um dos grandes mestres na dicotomia tradição / vanguarda. Destaques: Augusta Angélica Consolação, O Riso e a Faca, Cademar.


SÉRGIO SAMPAIO - Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua (1973)

No momento é o disco que eu levaria pra uma ilha deserta. Dor e compaixão em doze faixas antológicas. É sem dúvida um dos lamentos mais sinceros da música popular. Destaques: Pobre Meu Pai, Eu Sou Aquele que Disse, Não Tenha Medo Não ( Rua Moreira, 65), Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua.


TIM MAIA - idem (com a música "Réu Confesso") (1973)

O quarto disco de Tim Maia ganha meu voto entre suas várias obras-primas da época. É o mais redondo, o mais apaixonado. Destaques: Réu Confesso, Compadre, Gostava Tanto de Você, Música no Ar.


CARTOLA - Cartola (1974)

Quem viu o belíssimo documentário poético que Hilton Lacerda e Lírio Ferreira fizeram sobre este gênio entendem que seus discos todos mereciam um lugar aqui. Foram quatro, e infelizmente um deles tinha que ficar de fora. Destaques: Disfarça e Chora, O Sol Nascerá, Tive Sim, Alvorada.


RITA LEE & TUTTI FRUTTI - Atrás do Porto tem uma Cidade (1974)

Primeiro disco de Rita com a excelente Tutti Frutti. Atrás do Porto traz canções curtas e certeiras, com instrumental muito bom, tendendo para o progressivo. Rita se afastaria de vez dos mutantes para assumir a posição de rainha do rock. Merecida. Destaques: Ando Jururu, Io No creyo en Brujas, Mamãe Natureza.


ARNALDO BAPTISTA - Loki? (1974)

Arnaldo em carreira solo despirocada, um homem amargurado, atingido, ferido como um pássaro na mira de vários estilingues. Bonito de se ouvir, mas contra indicado a quem estiver com problemas depressivos.

Destaques: É Fácil, Vou Me Afundar na Lingerie, Uma Pessoa Só.


EGBERTO GISMONTI - Dança das Cabeças (1974)

De tantos discos de Gismonti que poderiam estar aqui, este foi o último que mais me agradou, como em outros tempos foram Carmo e Água e Vinho.


SECOS E MOLHADOS - Secos e Molhados (segundo)(1974)

Muitos discordam, achando que o primeiro é que é o clássico. Pode até ser, mas este é melhor. João Ricardo arrebenta em composições curtas, de instrumental intrincado. E Ney está cantando ainda melhor que no primeiro disco. Destaques: Flores Astrais, Tercer Mundo, O Hierofante.


JORGE BEN - Tábua de Esmeraldas (1974)

Nove entre dez críticos fãs do cantor considera este o melhor. Eu considero o terceiro melhor, mas é praticamente um empate técnico com os outros dois. É sensacional, que é o que importa. Destaques: Os Alquimistas Estão Chegando, O Homem da Gravata Florida, O Namorado da Viúva, Menina Mulher da Pele Preta.


ROBERTO CARLOS - Roberto Carlos (1974)

É o Rei, em seu segundo melhor disco. Não acredita? Veja algumas de suas faixas: Despedida, O Portão, A Estação, Jogo de Damas, A Deusa da Minha Rua, Resumo, Você, Eu Quero Apenas, É Preciso Saber Viver. E agora, acredita?


MILTON NASCIMENTO - Milagre dos Peixes (1974)

Aqui poderia ser Minas ou Gerais, ou o disco da silhueta de 1970. O que importa é que o genial bituca está representado. Temos, afinal, que considerar que o disco em parceria com Lô Borges (ver lado A) é mais criação coletiva do Clube da Esquina. Destaques:


JARDS MACALÉ - Aprender a Nadar (1974)

Eu vi o show de releitura do disco na penúltima Virada Cultural em São paulo. Sinto-me um felizardo por isso.


GAL COSTA - Cantar (1974)

Cantar é para mim o melhor disco de cantora. Mundial, não apenas nacional! Todos os compositores contribuem com a nata do que faziam no período. Tarefa das mais difíceis e injustas destacar faixas, mas vamos a estas quatro: Flor do Cerrado, Canção que morre no ar, O céu e o som, Lua Lua Lua Lua. (Ricardo Alpendre)


EDNARDO - Romance do Pavão Mysterioso (1974)

A trilha de Saramandaia, de Dias Gomes, fez com que este original compositor cearense ficasse mais conhecido. Muito menos, entretanto, que os conterrâneos Belchior e Fagner.


WALTER FRANCO - Revolver (1975)

Entre alguns discos dignos de nota desse vanguardista tão preso à tradição, este certamente é o mais valioso. Destaques: Feito Gente, Eternamente, Nothing, Cachorro Babucho.


CASA DAS MÁQUINAS - Lar de Maravilhas (1975)

O primeiro era mais pop, o terceiro mais rock'n'roll. Este é o álbum progressivo do grupo. Uma obra-prima, com a voz celestial de Simbas e uma instrumentação que não deve às grandes bandas do prog. Destaques: Vale Verde, Cilindro Cônico, Vou Morar no Ar.


JORGE BEN - Solta o Pavão (1975)

Para mim, este é "o" grande disco de Jorge Ben. Aquele que melhor exemplifica o que se convencionou a chamar de samba-rock. Segue a mesma toada de Tábua de Esmeraldas, mas consegue ser ainda melhor. Destaques: O Rei Chegou - Viva o Rei, Domingaz, Zagueiro, Velhos Flores Criancinhas e Cachorros.


GILBERTO GIL - Refazenda (1975)

Outro que merecia ter mais discos na lista é Gil, com sua voz única e suas letras inteligentíssimas. Aqui ele deixa um pouco a experimentação roqueira que marcou seus anos pós-exílio para fazer um disco pop, com uma única música de cunho vanguardista, chamada ironicamente de "Essa é pra Tocar no Rádio". Sua voz aqui soa cristalina como nunca. Segunda opção pra ilha deserta. Destaques: Refazenda, Ela, Lamento Sertanejo, Ê Povo Ê.


ALMÔNDEGAS - Aqui (1975)

Kleiton e Kledir eram deste ótimo grupo que lançou ao menos três discos notáveis nos anos 70, dos quais meu preferido de agora é este. Destaques: Mi Triste Santiago, Amor Caipira e Trouxa das Minas Gerais, Elevador, Haragana.


FAGNER - Ave Noturna (1975)

A obra-prima de um artista único, que realizou meia dúzia de grandes discos (destaque para Eu Canto e Manera Fru Fru), e após o excelente Traduzir-se, caiu na vala comum que assolou toda a MPB, e é responsável pelo vácuo criativo que existe até agora. Destaques: Riacho do Navio, Ave Noturna, Retrato Marrom, A Palo Sêco.


CLARA NUNES - Claridade (1975)

Uma verdadeira rainha do samba, que se foi cedo demais. Claridade foi o escolhido entre outros que também mereciam, a saber: Clara Nunes (1973), Alvorecer, Canto das Três Raças, Esperança.


NEY MATOGROSSO - Água do Céu Pássaro (1975)

Todos os discos de Matogrosso nos anos 70, e vários das décadas seguintes, com especial destaque para Feitiço, de 1978, e para o recente Inclassificáveis, são frutos de um artista em pleno domínio de suas possibilidades. Talvez este disco marque perfeitamente o que estou dizendo, já que o segundo dos Secos e Molhados tem muito de João Ricardo.


HYLDON - Na Rua Na Chuva Na Fazenda (1975)

Um delicioso passeio no campo, que não faz com que sintamos saudades da cidade grande.


CARLINHOS VERGUEIRO - Carlinhos Vergueiro (1975)

Tudo bem que Carlinhos queria ser Chico Buarque. As composições entregam. Mas seria maldade acreditar realmente nisso. Seus discos são tão bonitos, revelam uma sensibilidade tão brasileira e, acima de tudo, são tão inspirados que ele não podia ficar fora. Sua voz é carregada de uma melancolia que não parece consciente, fazendo o grande charme de seus discos. Este é o terceiro. Destaques: De Onde Vem, Precipício, Como Dói, Aragem de Fé.


A BARCA DO SOL - Durante o Verão (1976)

Outro que segue a linha do Recordando podendo ser considerado MPB. O primeiro disco é mais calmo, com instrumentações folk progressivas muito bonitas. Este, o segundo, é mais variado e traz algumas canções mais agressivas graças, principalmente, à guitarra tocada por Beto Rezende. Destaques: Durante o Verão, Hotel Colonial, Os Pilares da Cultura.


CHICO BUARQUE - Meus Caros Amigos (1976)

Tenta achar uma única faixa supérflua neste disco. Tente. Espécie de coletânea de faixas que ele compôs para o teatro, para o cinema, para e com os amigos, e Francis Hime é o grande e genial cúmplice. Destaques: Mulheres de Atenas, Olhos nos Olhos, O Que Será, Meu Caro Amigo.


TOM ZÉ - Estudando o Samba (1976)

Nova obra-prima do baiano maluco. Uma verdadeira revolução em nosso ritmo mais popular. Destaques: Tô, Mãe (Mãe Solteira), Só (Solidão), Hein?


CARTOLA - Cartola II (1976)

Gênio é gênio. Desnecessário dizer mais do que isso. Destaques: O Mundo é um Moinho, As Rosas Não Falam, Cordas de Aço, Preciso me Encontrar.


LUIZ MELODIA - Maravilhas Contemporâneas (1976)

Pérola Negra é um grande disco, claro, mas vários grandes discos ficaram de fora, e o melhor de Melodia é esta verdadeira pérola. Destaques: Juventude Transviada, Questão de Posse, Paquistão.


GUILHERME ARANTES - Guilherme Arantes (1976)

Não há como negar que o que Guilherme faz tem muito da tradição da Bossa Nova. Suas canções são melódicas, dificilmente possuem a energia necessãria para ser considerada rock. Prefiro pensar que, numa divisória que separa MPB de Rock, estão bem próximos da linha o 14 Bis e o Guilherme. Cada um de um lado. É puramente subjetivo? Certamente. Então me enviem suas listas. Destaques: Antes da Chuva Chegar, Meu Mundo e Nada Mais, A Cidade e a Neblina, Cuide-se Bem.


SÉRGIO SAMPAIO - Tem Que Acontecer (1976)

"Nasceu o filho do ovo / vai ser galo de terreiro / ou frango assado no almoço" O segundo disco de Sampaio sem o padrinho Raul Seixas para segurá-lo é uma nova obra-prima. Que tende a ficar desconhecida do grande público porque a gravadora comete o crime de só ter lançado em CD com a capa adulterada, parecendo uma dessas coletâneas acintosas que existem aos montes. Só neste país mesmo os responsáveis permanecem impunes. Destaques: Que Loucura, Tem Que Acontecer, Velho Bandido, Cada Lugar na Sua Coisa.


TIM MAIA - Tim Maia (1976)

Que Racional o que? Perde feio para vários outros discos de Tim. Como este, que tem suingue a dar com pau. Destaques: Dance Enquanto é Tempo, Rodésia, Márcio, Leonardo e Telmo, É Preciso Amar.


BELCHIOR - Alucinação (1976)

Um amigo meu costuma dizer que este é o Sgt Peppers do Belchior, querendo dizer que é o melhor disco dele. Provavelmente é mesmo. Mas devo dizer que o primeiro, de 1974, caiu em um dos vários cortes para ficar nos 100. Sua carreira seguiria firme até 1979. A partir de Objeto Direto (1980), Belchior foi caindo na vala para onde foram vários grandes de outrora. Uma pena, mesmo. Destaques: Apenas um Rapaz Latino Americano, Velha Roupa Colorida, Como Nossos Pais, A Palo Seco.


BETO GUEDES - A Página do Relâmpago Elétrico (1976)

Da turma de Minas, é o da voz de taquara rachada. Num mundo perfeito, seria considerado Deus da poesia musical. Sua voz é um deleite de melodia e fragilidade. A vulnerabilidade de suas interpretações fazem com que alguns incautos releguem-no a um segundo escalão. Nada mais injusto. Destaques: A Página do Relâmpago Elétrico, Maria Solidária, Tanto, Belo Horizonte.


RECORDANDO O VALE DAS MAÇÃS - Crianças da Nova Floresta (1977)

Este disco é de MPB. Suas melodias singelas, seus arranjos acústicos e, acima de tudo, aquele climão gostoso meio hippie da década de 70 fazem do disco uma perfeita pedida pra quem gosta do Clube da Esquina, por exemplo. Acontece que o disco vende muito mais para quem gosta de rock progressivo. Destaques: Ranchos Filhos e Mulher, Raio de Sol e a suite Crianças da Nova Floresta.


SOM NOSSO DE CADA DIA - Som Nosso (vulgo Sábado / Domingo) (1977)

Um lado funk/soul, o outro prog/pop. O lado funk soul sai ganhando, mas o outro lado também tem muita coisa boa. Destaques: Vida de Artista, Estação da Luz, Bem do Fim, Rara Confluência.


CARTOLA - Verde Que te Quero Rosa (1977)

Ah, palavras são totalmente supérfluas. Destaques: Fita Meus Olhos, Desta Vez Eu Vou, Nós Dois.


GERSON KING COMBO - Gerson King Combo (1977)

Um arraso do início ao fim. Seu segundo disco também é muito bom (um tiquinho abaixo deste), assim como o da União Black, do ano seguinte.


MORAES MOREIRA - Cara e Coração (1977)

Este é o segundo disco solo de Moraes Moreira, depois que ele deixou os Novos Baianos em boas mãos, e seguindo com maravilhas. Tivemos, assim, duas frentes de batalha do mesmo sangue, ambas muito, imensamente talentosas.


JOÃO BOSCO - Tiro de Misericórdia (1977)

O melhor de João Bosco também alia tradição a modernidade, bem ao gosto da MPB após a tropicalia. Só que Bosco privilegia o tradicional em sambas deliciosos. Mas assim como Paulinho da Viola sempre insere no mínimo uma canção mais ousada. Neste é a faixa título, com seu arranjo apocalíptico. Destaques: Vaso Ruim não Quebra, Plataforma, Tiro de misericórdia.


JOÃO GILBERTO - Amoroso (1978)

É o álbum que tem a interpretação de João para "Wave". Evidentemente é a versão definitiva. Os arranjos de Claus Ogerman são bons o suficiente para não comerem poeira do violão do baiano. Escolha de repertório impecável. Conceitualmente o melhor álbum do mestre.

Destaques: Wave, Estate, Triste. (Ricardo Alpendre)


GUILHERME ARANTES - A Cara e a Coragem (1978)

O disco confessional de Arantes. No qual ele tem coragem de reclamar da vida, de mostrar que burguês também sofre, principalmente quando abandona a vida fácil da casa dos pais. Destaques: Brincos na Orelha, Show de Rock, Mas Ela Não Quer Mas Ela Não Pode, Brazilian Boys.


MORAES MOREIRA - Auto Falante (1978)

Entre este e o disco seguinte de Moraes, que contém a faixa-título Lá Vem o Brasil Descendo a Ladeira, o que desempatou foi a sensacional "Revoada". E o disco ainda tem "Pedaço de Canção" e "Fruta Mulher". Haja superlativos.


CHICO BUARQUE - Chico Buarque (1978)

O disco em que se pode encontrar "Cálice", finalmente liberada para censura. Além dela, ainda encontramos "Feijoada Completa", "Trocando em Miúdos", "Até o Fim", "Pedaço de Mim", "O Meu Amor", "Tanto Mar", "Pivete", "Apesar de Você"... ufa!!!


PEPEU GOMES - Geração de Som (1978)

Leram o verbete do Aprender a Nadar, de Jards macalé? Pois é. Aconteceu o mesmo com este disco, só que neste ano. Posso dizer que mesmo achando o disco uma obra-prima, não esperava um show tão intenso quanto aquele. Os fantasmas do Teatro Municipal nunca se recuperarão.


OLIVIA BYINGTON - Corra o Risco (1978)

Ela saiu da Barca do Sol, para brilhar neste primeiro disco solo, com pegada roqueira e a voz dela arrasando. O segundo, Anjo Vadio (1980), com a capa hiper sensual, é muito bom. Mas este é inacreditável. Destaques (que mudam a cada vez que escuto): Lady Jane, Corra o Risco, Cavalo Marinho, Brilho da Noite.


AMELINHA - Frevo Mulher (1978)

Vou ser massacrado por esta escolha. Azar de quem não entender. Amelinha teve outros belos discos antes e depois, mas este é, sem dúvida, o melhor. Destaques: Frevo Mulher, Galope Razante, Divindade.


TAVITO - Tavito (1979)

O saudosismo rasgado de Tavito pode fazer muita gente torcer o nariz. Ignorar a beleza de suas canções seria, no entanto, uma heresia merecedora do pior castigo. Destaques: Rua Ramalhete, Começo Meio e Fim, Naquele Tempo, Coração Remoçado.


LÔ BORGES - A Via Láctea (1979)

Uma perfeição de melodias e arranjos fazem deste disco o melhor companheiro de viagens. É sério. No caminho para o Rio de Janeiro passei as seis horas ouvindo e reouvindo esta maravilha. E olha que eu não sou de escutar o mesmo disco duas vezes seguidas. Ah...sim, eu tinha outras opções. Destaques: A Via Láctea, Vento de Maio, Chuva na Montanha, Equatorial.


ODAIR JOSÉ - O Filho de José e Maria (1979)

Odair José descobrindo que não é Roberto Carlos e fazendo uma obra-prima de ironia e questionamento.

Destaques: O Filho de José e Maria, Nunca Mais, O Casamento.


TONINHO HORTA - Terra dos Pássaros (1980)

Infelizmente, faz anos que não escuto este disco. Acontece. Só não me peçam para esquecê-lo, porque será impossível.


JOÃO GILBERTO, CAETANO VELOSO E GILBERTO GIL - Brasil (1980)

Você gosta da música de João? Sim? Ótimo! Imagine três João-Gilbertos e a participação suave de Maria Bethania. Não gosta de João? Vocês são muitos. Imagine três dele então. São seis faixas, 28 minutos apenas. Passa rápido (infelizmente).

Destaques: Disse Alguém (All of me), Bahia com H, Milagre. (Ricardo Alpendre)


BOCA LIVRE - Boca Livre (1980)

A perfeição dos vocais, a qualidade dos arranjos, a felicidade nas composições e nas interpretações e a beleza da voz de Zé Renato fazem deste disco uma daas maiores delícias da MPB. Destaques: Quem Tem a Viola, Toada, Barcarola do São Francisco.


JOYCE - Feminina (1980)

Se fosse um EP com as quatro primeiras faixas (Feminina, Mistérios, Clareana, Banana), já bastaria para este disco entrar aqui. E tem muito mais.


DJAVAN - Alumbramento (1980)

O alagoano Djavan sempre buscou a renovação da MPB pelo cruzamento com rítmos negros. Neste ele consegue uma mistura perfeita, com aquelas melodias inusitadas que caracterizam sua obra. Destaques: Lambada de Serpente, A Rosa, Meu Bem Querer.


ARRIGO BARNABÉ - Clara Crocodilo (1980)

Infinitamente superior a tudo mais que Arrigo criou, mesmo se pensarmos no ótimo Tubarões Voadores (1984), este marco da vanguarda paulistana do começo da década de 80 é daqueles discos que já entraram para a história. Destaques: Diversões Eletrônicas, Acapulco Drive-in, Clara Crocodilo.


ITAMAR ASSUMPÇÃO - Beleléu (1980)

Outro excelente exemplar da vanguarda paulistana. Os shows de Itamar eram, sem exceção, o que de mais rico se podia ouvir nos anos que se seguiram a esta estréia inspiradíssima. Destaques: Luzia, Fico Louco, Beijo na Boca, Nego Dito.


A COR DO SOM - Transe Total (1980)

Os colecionadores de rock nacional vão querer me crucificar. Como passar por cima de discos como o Ao vivo em Montreaux ou o primeiro? Mas é no quarto disco que eles conseguiram mesclar a quantidade ideal de instrumentação impecável com apelo pop irresistível. Claro que os discos anteriores são fundamentais. Mas ignorar as inúmeras qualidades deste disco é pecar para arder no fogo do inferno. E Armandinho é de outro mundo. Destaques: Palco, Zanzibar, Semente do Amor, Para Ser o Sol.


RUMO - Rumo (1981)

Admito que um só desta banda fenomenal é pouco. Infelizmente, caíram num dos cortes Rumo aos Antigos e Quero Passear, sendo que Diletantismo e Caprichoso poderiam entrar tranquilamente. Dezenove faixas de puro encanto musical.


14 BIS - Espelho das Águas (1981)

Muitos protestarão contra a inclusão deste disco argumentando que não se trata de Rock. Apesar da influência do clube da esquina, não dá pra negar que o 14 Bis tem uma inclinação mais roqueira. É um rock mais adulto, mais domesticado. Suave, segundo detratores. Mas é rock. Ignorá-lo seria desmerecer melodias belas arranjadas com um quê de rock progressivo. Destaques: Razões do Coração, No Meio da Cidade, Espelho das Águas, Mesmo de Brincadeira.


CAETANO VELOSO - Outras Palavras (1981)

Não seria exagero considerar este como o melhor disco de Caetano. Tem "Rapte-me Camaleoa", ou, pop perfeito. Tem a faixa título e ainda "Lua e Estrela". E tem muito mais. Um disco super redondo, com a Outra Banda da Terra.


JOÃO DONATO - Leilíadas (1986)

Um dos discos mais bonitos e tocantes que já ouvi. Leilas para todos os gostos (Leila é o nome de todas as faixas do disco, com o número para diferenciá-las).


IRA - Vivendo e não Aprendendo (1986)

Este segundo disco do Ira não traz nada de novo. É apenas mais um disco da banda que não sabia se queria ser Who ou Jam. Mas é inspiradíssimo. Canções primorosas muito bem tocadas. E Edgard Scandurra é um monstro na guitarra. Talvez só comparável ao Pepeu a ao Armandinho. Destaques: Dias de Luta, Envelheço na Cidade, Vitrine Viva.


LEGIÃO URBANA - Dois (1986)

Da geração prolífica dos anos 80, tinha muita coisa pra colocar. Capital Inicial, Camisa de Vênus, Paralamas do Sucesso, Barão Vermelho, Ultraje a Rigor, RPM, todos mereciam ter um álbum na lista. Sem contar inúmeras bandas independentes e geniais como Fellini, Mercenárias, Akira S. e as Garotas que Erraram, Nau e Cabine C. Escolhi Legião e Titãs por terem feito os discos mais fortes e bons de ouvir da época (critério de desempate discutível, mas qual não seria?). Beneficiados, é certo, pelo Plano Cruzado, que aumentou o consumo criando um estouro de vendas de discos (basta ver o número de discos de 86 na lista) criaram pérolas de rock juvenil. A banda de Renato Russo fez, a rigor, dois grandes discos. Este e o quinto, nos quais atingiram o máximo na mistura de letras auto confessionais com boas melodias pop. Renato provou aqui ser um grande letrista, refletindo os anseios de sua geração. Mas tudo isso é clichê barato. Fique com a música que é inspirada. Destaques: Andrea Dória, Tempo Perdido, Indios.


REPLICANTES - O Futuro é Vortex (1986)

Impossível ouvir este disco sem um largo sorriso no rosto. Irreverência e humor em punks inspiradíssimos. Clássico indispensável. Não saia por aí dizendo não ter esse disco. Você vai passar vergonha. Destaques: Boy do Subterrâneo, Hippie Punk Hajinish, Motel da Esquina, Mulher Enrustida.


PICASSOS FALSOS - Picassos Falsos (1987)

Esta provavelmente é a melhor banda de rock brasileiro dos anos 80. Sempre subestimada, lembra, em seus momentos menos bons, o melhor do Capital Inicial. Nos melhores, a guitarra de Luiz Gustavo dá o tom, com seus esporros sonoros à Sonic Youth. Injustamente, a banda só gravou mais um disco, o sublime Supercarioca, que ficou ausente desta lista por muito pouco. Destaques: Carne e Osso, Quadrinhos, Últimos Carnavais.


PATIFE (BAND) - Corredor Polonês (1987)

Um dos discos mais geniais do rock brazuca. O irmão de Arrigo mostra que apreendeu direitinho o que ouviu nas sessões de Clara Crocodilo que participou. Sua mistura de punk, pós-punk, free jazz e progressivo resulta num clássico de ecletismo inacreditável. Destaques: Tô Tenso (de Arrido e Itamar, os grandes canalhas), Vida de Operário e Maria Louca.


CAETANO VELOSO e GILBERTO GIL - Tropicália 2 (1993)

Podem me crucificar, mas este Tropicália 2 é melhor que o Tropicália original. Ao menos sua presença por aqui nunca esteve ameaçada, como a do outro. Pudera, com faixas excelentes como "Haiti", "Tradição", e a versão deles para "Wait Until Tomorrow", do Jimi Hendrix, fica fácil.


ITAMAR ASSUMPÇÃO - Bicho de Sete Cabeças (a Trilogia, em vinil) (1993-1994)

Uma pequena trapaça. A trilogia (em vinil), composta de dois CDs. Itamar merece.


MARISA MONTE - Verde Anil Amarelo Cor de Rosa e Carvão (1994)

Não se pode culpar Marisa Monte (nem Adriana Calcanhoto), pela profusão uniformizada de cantoras que soam caricaturas de grandes divas do passado. Marisa, em seu terceiro disco, se livrou definitivamente do espectro de Gal Costa, sem deixar de lado a influência, claro. Em discos recentes, a cantora provou que ainda é muito superior a todas as outras que vieram em sua cola.

Destaques: Dança da Solidão, De Mais Ninguém, Alta Noite, Esta Melodia.


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Os 17 discos que caíram fora por causa do limite de três por autor (uma injustiça?):

ROBERTO CARLOS - O Inimitável (1968)

MUTANTES - Mutantes (1969)

ROBERTO CARLOS - Roberto Carlos (1971)

CHICO BUARQUE - Chico Canta (1973)

NOVOS BAIANOS - Novos Baianos (1974)

NOVOS BAIANOS - Vamos Pro Mundo (1974)

CAETANO VELOSO - Qualquer Coisa (1975)

JORGE BEN - África Brasil (1976)

NOVOS BAIANOS - Caia na Estrada e Perigas Ver (1976)

ROBERTO CARLOS - Roberto Carlos (1977)

CHICO BUARQUE - Vida (1979)

CHICO BUARQUE E EDU LOBO - O Grande Circo Místico (1981)

CAETANO VELOSO - Velô (1984)

CAETANO VELOSO - Circuladô (1991)

CAETANO VELOSO e JORGE MAUTNER - Eu Não Peço Desculpa (2004)

CAETANO VELOSO - Cê (2007)

TOM ZÉ - Estudando o Pagode (2004)

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Os 27 discos que caíram fora no último grande corte (foram três cortes ao todo):

EDU LOBO - Cantiga de Longe (1970)

RONNIE VON - Minha Máquina Voadora (1970)

JOÃO DONATO - A Bad Donato (1970)

MARCOS VALLE - Garra (1971)

EUMIR DEODATO - Percepção (1972)

EGBERTO GISMONTI - Água e Vinho (1972)

MARIA BETHÂNIA - Drama (1972)

FRANCIS HIME - Francis Hime (1973)

SÁ, RODRIX E GUARABYRA - Terra (1973)

HERMETO PASCOAL - A Música Livre de Hermeto Pascoal (1973)

SOM IMAGINÁRIO - A Matança do Porco (1973)

O SOM NOSSO DE CADA DIA - Snegs (1974)

SÁ E GUARABYRA - Nunca (1974)

JOÃO BOSCO - Galos de Briga (1976)

BANDA BLACK RIO - Maria Fumaça (1977)

UNIÃO BLACK - União Black (1978)

BENDEGÓ - Bendegó (1979)

MORAIS MOREIRA - Bazar Brasileiro (1980)

OS BORGES - Os Borges (1980)

ULTRAJE A RIGOR - Nós Vamos Invadir Sua Praia (1985)

TITÃS - Cabeça Dinossauro (1986)

JOÃO GILBERTO - João (1989)

JARDS MACALÉ - Let's Play That (1994)

THAÍDE E DJ HUM - Preste Atenção (1996)

ED MOTTA - Manual Prático para Festas, Bailes e Afins (1997)

RACIONAIS MC'S - Sobrevivendo no Inferno (1998)

RAPPIN' HOOD - Sujeito Homem (2001)

quinta-feira, junho 03, 2010

Yes, de 1969 a 1987


Direto ao ponto, uma passada pelos discos de uma das melhores bandas do tão incompreendido rock progressivo.


Yes (1969) * * * * 1/2

Estreia inspiradíssima de uma banda que se achava lixo perto do King Crimson. Consta que eles foram ver, ainda em 1969, um show da banda de Fripp e sairam desanimados demais. O que chama a atenção, nesses anos anteriores ao desbunde progressivo que eles ajudariam a fazer explodir, é a força das melodias, principalmente nas composições de Jon Anderson.

Destaques: Harold Land, Yesterday and Today, Survival.


Time and a Word (1970) * * * * *

Melodias perfeitas e execuções super trabalhadas, com Peter Banks e Tony Kaye arrasando. "Astral Traveller" é TOP 5 Yes, fácil. Já ouvi dizer que Steve Howe toca em várias do disco, mas nunca obtive confirmação para essa afirmação.

Destaques: Astral Traveller, Time and a Word, Sweet Dreams.


Yes Album (1971) * * * 1/2

Com Steve Howe no lugar de Peter Banks, a banda iria aos poucos chegar à cristalização de um som progressivo e místico, bem a ver com as aspirações de Anderson e Squire. Mas aqui as melodias são menos inspiradas que nos dois primeiros discos. É um belo disco, mas um pouco superestimado.

Destaques: Starship Trooper, A Venture, Perpetual Change.


Fragile (1972) * * * * *

Se você quiser comprar apenas um disco do Yes... Em Fragile, eles atingem o ápice do rock progressivo. Muito bem tocado, com a substituição de Kaye por Rick Wakeman (perdendo em punch, ganhando em técnica), é um disco sensacional, com quatro canções, todas excepcionais, e faixas curtas, representando cada integrante da banda, com destaque para "Mood for a Day", de Steve Howe.

Destaques: South Side of the Sky, Long Distance Runaround, Heart of Sunrise, Roundabout.


Close to the Edge (1972) * * * * 1/2

Com apenas três faixas, com destaque para a faixa-título, que preenche todo o lado A do LP, seria o disco que deflagraria uma crise na banda, completamente expurgada após o medíocre disco de estúdio que veio a seguir. Wakeman chamou o material deste disco de música para robôs, e ficaria ainda mais chateado com as pirações de Anderson em Tales From Topographic Ocean, mais conhecido como o disco que matou (com seu misticismo insuportável) boa parte da criatividade de Anderson.


Yessongs (1973) * * * *

Aqui abanda está no auge de suas habilidades técnicas. É um álbum triplo que tinha uma arte caprichada de Roger Dean, e saiu no Brasil com capa muito simplificada, envergonhando nosso mercado fonográfico.O som do CD é abafado, infelizmente. Não sei se houve uma nova remasterização para corrigir. Alan White substituiu o monstro da batera, Bill Bruford, durante a turnê.

Destaques: Excerpts from The Six Wives of Henry VIII, Heart of Sunrise, Long Distance Runaround, Close to the Edge.


Tales From Topographic Ocean (1974) * *

Um dos álbuns duplos mais chatos já feitos. Não tem como entender como a banda faria um troço assim entre Close to the Edge e Relayer, dois de seus melhores discos. O disco 1 até que se salva, mas o 2 é um tremendo porre de fanta uva com amendocrem vencido.


Relayer (1974) * * * * *

Sai Wakeman, entra Patrick Moraz. Neste disco, especificamente na suite "The Gates of Delirium", eles atingem o grau máximo no quesito "incomodar vizinhos e mães". Muita gente o considera o grande álbum da banda, e talvez estejam certos, embora seja difícil acreditar num álbum sem Bruford como o melhor da banda. O ano é 1974, auge do jazz rock, com Jeff Beck Group, Mahavishnu Orchestra e o Return to Forever de Chick Corea bombando. Por isso Relayer tem um toque mais jazzístico que os antecessores.


Going for the One (1977) * * * *

"Parallels" (composta por Squire) é a canção mais impressionante do disco, e remete ao disco solo de Chris Squire, Fish Out of Water. Seria a pegada de Drama, disco que vem três anos depois. A faixa-título inicia com a barulheira que impregnava trechos de Relayer. E "Wonderous Stories" é dessas baladas mágicas, que vez ou outra essas bandas progressivas faziam como ninguém.


Tormato (1978) * *

Algums momentos dignos dentro das faixas, e apenas uma realmente - e por inteiro - boa: "Release Release".


Drama (1980) * * * *

Com a saída de Jon Anderson, podemos considerar este disco como Fish Out of Water volume 2, graças à sonoridade voltada para o baixo, lembrando o tão elogiado disco solo que Squire lançou em 1975. O exemplo perfeito dessa filiação é a faixa "Does it Really Happen", com um absurdo de baixo Rickenbacker.


90125 (1983) * * * 1/2

Intitulado com o número de série da versão original inglesa, este disco marca a volta de Jon Anderson e de Tony Kaye. Como nem tudo é perfeito, Steve Howe, outro mago, sai para a entrada de Trevor Rabin. É um belo disco da AOR, ao menos no inspirado lado A. O lado B já entorta um pouco.

Destaques: Leave it, It Can Happen, Changes.


9012 Live - The Solos (1985) * * 1/2

Um ao vivo irregular, talvez desnecessário, mas com seus momentos. Tem um solo de Rabin que lembra os de Howe, e termina com o acorde de "Soon", já mostrando qual a faixa que virá em seguida.

Destaques: Changes, Whitefish.


Big Generator (1987) * *

O AOR segue firme e forte com a interessante faixa de abertura, "Rhythm of Love", com belos backing vocals e uma melodia agradável. A faixa-título, que vem a seguir, já coloca tudo a perder, e mostra o que será o resto do álbum: melodias nada a ver com arranjos sem imaginação, com mais uma exceção: "Shoot High Aim Low", bela e climática balada.


De 1985 em diante muito pouca coisa de estúdio se salva na produção da banda, incluindo aí o estranho álbum Anderson Bruford Wakeman Howe. O destaque óbvio nesse caso vai para o revisionismo sinfônico das partes de estúdio de Keys to Ascension I e II, enquanto os momentos constrangedores se multiplicam pelos outros discos.